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Pagamento internacional: como sua empresa paga e recebe no comércio exterior

Leendert van Delft
Leendert van Delft
Vice-Presidente de Programas Globais de Vendas, Marketing (Digital) e Comércio Eletrônico Global
11 minutos de leitura
Assinatura de um contrato de câmbio em uma mesa de escritório
Neste artigo
Quatro formas: antecipada, sem saque, documentária e crédito
Importação pode ser paga até 360 dias antes do embarque
Câmbio de exportação: até 1.500 dias após o embarque
Banco tem 5 dias bancários para examinar os documentos

Pagamento internacional é a forma como o dinheiro de uma compra ou venda atravessa a fronteira, com quatro caminhos usuais: remessa antecipada, remessa sem saque, cobrança documentária e carta de crédito. A escolha define quem corre risco, quanto custa a operação e quando a mercadoria embarca.

Quem está começando a exportar costuma travar na mesma pergunta. O comprador quer receber a mercadoria para depois pagar, você quer receber para depois embarcar, e nenhum dos dois conhece o outro. Existe estrutura financeira pronta para resolver esse impasse, e ela é mais barata do que parece.

O que é pagamento internacional no comércio exterior?

É a operação pela qual uma empresa brasileira paga um fornecedor no exterior ou recebe de um cliente lá fora. Envolve duas camadas: o arranjo comercial entre as partes, que define quando e contra o quê o dinheiro é liberado, e a operação de câmbio, que converte moeda estrangeira em reais ou o contrário.

A base legal brasileira é a Lei nº 14.286, de 29 de dezembro de 2021, o marco legal do câmbio. Pelo artigo 2º, as operações no mercado de câmbio podem ser realizadas livremente, sem limitação de valor, e a taxa é livremente pactuada entre a instituição e o cliente. Fonte: Presidência da República, Lei nº 14.286/2021.

Duas consequências práticas saem daí. A primeira é que a operação só pode ser feita por instituição autorizada pelo Banco Central, conforme o artigo 3º. A segunda é que a taxa de câmbio não é tabelada, então vale pedir cotação em mais de uma instituição antes de fechar, principalmente em valores altos.

Há uma responsabilidade que costuma passar despercebida. O artigo 4º da lei coloca no cliente, não no banco, a classificação da finalidade da operação de câmbio. Informar a finalidade errada é problema da sua empresa, e o banco tem o dever de orientar, não de adivinhar.

Quais são as formas de pagamento internacional?

As formas de pagamento internacional são quatro, e se diferenciam pelo ponto em que o risco muda de lado. A tabela compara as modalidades pelo que interessa na hora de negociar: quem fica exposto, o que o banco faz e em que situação cada uma costuma fazer sentido.

Modalidade

Quem assume o risco

Papel do banco

Quando costuma fazer sentido

Remessa antecipada

Importador

Só transfere o valor

Fornecedor com poder de barganha, produção sob encomenda, valores baixos

Remessa sem saque

Exportador

Só transfere o valor

Relação antiga, matriz e filial, cliente com histórico de pagamento

Cobrança documentária

Dividido

Guarda e entrega documentos

Parceria em construção, carga com documento de controle

Carta de crédito

Bancos assumem parte

Assume compromisso de pagar

Primeiro negócio, valor alto, país de risco maior

Nenhuma das quatro é a melhor. Elas são degraus de confiança: quanto menos as partes se conhecem, mais estrutura bancária o negócio precisa, e mais caro ele fica. Conforme a relação amadurece, dá para descer o degrau e economizar.

Como funciona a remessa antecipada e quem corre risco?

O importador paga antes de a mercadoria embarcar. O risco é inteiro dele: se o fornecedor não produzir, não embarcar ou embarcar coisa diferente, o dinheiro já saiu. Em compensação, é a modalidade mais simples e a que mais agrada a fornecedor novo.

O Banco Central estabelece limites de tempo para essa antecipação. Pela Resolução BCB nº 277, de 31 de dezembro de 2022, o pagamento de importação pode ser antecipado em até 360 dias antes da data prevista para o embarque. Fonte: Banco Central do Brasil, Resolução BCB nº 277/2022, artigo 47.

Existe uma janela bem maior para casos específicos. A mesma resolução admite antecipação de até 1.800 dias quando se tratar de máquinas e equipamentos com longo ciclo de produção ou fabricação sob encomenda, desde que compatível com o ciclo do bem, ou quando houver comprovação de impossibilidade de embarque por fatores alheios à vontade do importador.

Se você vai antecipar, reduza a exposição com três providências simples: divida o pagamento em parcelas atreladas a etapas da produção, peça fotos e relatório de fábrica antes da última parcela, e escreva no contrato o prazo limite de embarque. É negociação, não burocracia.

O que é cobrança documentária e quando ela compensa?

O exportador embarca a mercadoria e entrega os documentos ao seu banco, que os envia ao banco do importador. O importador só recebe os documentos, e com eles a posse da carga, quando paga ou aceita a letra de câmbio. O banco cuida dos papéis, mas não garante o pagamento.

As regras internacionais dessa modalidade estão na publicação URC 522 da Câmara de Comércio Internacional, a ICC, em vigor desde 1º de janeiro de 1996. Fonte: ICC, Uniform Rules for Collections. Elas padronizam o que cada banco faz e o que não faz, o que evita muita discussão quando algo sai do previsto.

O ponto cego da cobrança documentária é o transporte aéreo. Em modal marítimo, o conhecimento de embarque é título representativo da mercadoria: sem ele, ninguém retira a carga. No aéreo, o conhecimento não tem essa natureza, então o controle depende de como a remessa foi consignada. Alinhe isso com o seu transportador antes de embarcar.

Quando faz sentido: relação em construção, com um cliente que você já conhece de nome mas ainda não de histórico. Custa menos que carta de crédito e protege mais que remessa sem saque. Como os documentos são o centro da operação, o guia da fatura comercial ajuda a montar o jogo de papéis sem erro.

Como funciona a carta de crédito?

O banco do importador assume o compromisso de pagar o exportador, desde que sejam apresentados documentos exatamente conforme as condições do crédito. O risco comercial do comprador sai da conta e entra o risco do banco emissor, que costuma ser bem menor.

A carta de crédito é regida pela UCP 600, a publicação da ICC que reúne as regras e práticas uniformes para créditos documentários. Ela está em vigor desde 1º de julho de 2007 e tem 39 artigos, contra 49 da versão anterior. Fonte: ICC, UCP 600.

Dois pontos da UCP 600 explicam o comportamento dos bancos e evitam frustração. O primeiro é que o banco trabalha com documentos, não com mercadoria: se os papéis estão em ordem, ele paga, ainda que a carga tenha problema. O segundo é o prazo de exame, fixado no subartigo 14(b) em no máximo cinco dias bancários após o dia da apresentação.

O preço dessa segurança é operacional. Toda divergência entre os documentos e o texto do crédito, mesmo uma palavra fora de lugar, suspende o pagamento até que o importador concorde em relevar. Por isso a carta de crédito recompensa quem lê o crédito com atenção no dia em que ele chega, e não na véspera do embarque.

O que é o contrato de câmbio e quais prazos valem no Brasil?

É a operação em que a moeda estrangeira é comprada ou vendida junto a uma instituição autorizada. Na Resolução BCB nº 277, a liquidação da operação com cliente pode ser pronta, em até dois dias úteis da contratação, ou futura, com prazo de até 1.500 dias. Fonte: Banco Central do Brasil, artigo 38.

Para quem exporta, dois prazos importam. A operação de câmbio pode ser celebrada antes ou depois do embarque. E, quando a liquidação ocorre depois do embarque, o prazo máximo entre os dois eventos é de 1.500 dias, contados da data de emissão do conhecimento de transporte internacional.

As receitas de exportação também ganharam flexibilidade no marco atual. Elas podem ingressar em reais ou em moeda estrangeira, independentemente da moeda da negociação comercial, e o recebimento pode ocorrer mediante crédito em conta mantida no exterior por instituição autorizada a operar no câmbio no País.

Um cuidado contratual fecha o assunto. Depois de fechada, a operação de câmbio não admite alteração de comprador, vendedor, valor em moeda estrangeira, valor em reais, moeda ou taxa. Confira esses cinco campos antes de confirmar, porque o conserto depois é cancelamento, com custo.

A variação do câmbio entre a venda e o recebimento é outro assunto, e tem página própria: veja como funciona a gestão de risco cambial antes de fixar preço em moeda estrangeira com prazo longo.

Como escolher a forma de pagamento para cada negócio?

Pelo tamanho do prejuízo que você aguenta se o outro lado falhar. Essa é a pergunta honesta, e ela ordena a decisão melhor do que qualquer tabela. A partir daí, quatro passos resolvem a maioria dos casos:

  1. Estime a perda máxima. Se perder o valor do pedido quebra o seu mês, trabalhe com carta de crédito, mesmo pagando mais caro pelas tarifas.
  2. Olhe o histórico. Cliente ou fornecedor com dois anos de pedidos entregues e pagos permite descer para cobrança documentária ou remessa sem saque.
  3. Considere o país e o setor. Destino com restrição cambial ou histórico de bloqueio de remessa pede estrutura bancária, não confiança.
  4. Combine a forma de pagamento com o Incoterm. Quem paga o frete, quem contrata o seguro e onde o risco muda de mãos precisam conversar com a modalidade escolhida.

Esse último ponto é onde mais se erra. Vender com pagamento antecipado e Incoterm que coloca todas as obrigações no exportador é contrato desequilibrado dos dois lados ao mesmo tempo. Se essa parte ainda não está clara, comece pelo guia de Incoterms e volte para a escolha do pagamento depois. O processo completo de venda ao exterior está no guia de exportação para empresas.

Perguntas frequentes sobre pagamento internacional

Sim, quando os recursos ingressam no Brasil. A operação é feita por instituição autorizada pelo Banco Central e pode ser liquidada de forma pronta, em até dois dias úteis, ou futura, com prazo de até 1.500 dias, segundo a Resolução BCB nº 277/2022.

Pode. A antecipação do pagamento de importação é admitida em até 360 dias antes da data prevista para o embarque, e em até 1.800 dias para máquinas e equipamentos com longo ciclo de produção ou fabricação sob encomenda, conforme a Resolução BCB nº 277/2022.

Na cobrança documentária o banco apenas guarda e entrega os documentos contra pagamento ou aceite, sem garantir nada. Na carta de crédito o banco emissor assume o compromisso de pagar contra documentos conformes, o que transfere o risco comercial do comprador para uma instituição financeira.

No máximo cinco dias bancários após o dia da apresentação, conforme o subartigo 14(b) da UCP 600, da Câmara de Comércio Internacional. Se houver divergência entre os documentos e o crédito, o banco pode recusar a apresentação e o pagamento fica suspenso até a solução.

Sim, e a Resolução BCB nº 277/2022 prevê que o recebimento do valor da exportação pode ocorrer, entre outras formas, mediante crédito em conta mantida no exterior por instituição autorizada a operar no mercado de câmbio no País, a critério das partes.

Não. A Lei nº 14.286/2021 estabelece que a taxa de câmbio é livremente pactuada entre as instituições autorizadas e seus clientes. Comparar cotações e o custo total da operação, incluindo tarifas, muda o resultado de forma relevante em valores mais altos.

Quando o dinheiro depende da carga chegar

Toda modalidade de pagamento internacional se apoia em documentos que só existem porque a mercadoria se moveu. Conhecimento de transporte, fatura, prova de embarque: atraso na carga vira atraso no caixa, e documento errado vira divergência bancária.

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