#b2b

USMCA: o que muda na revisão de 2026 para empresas brasileiras

Marcelo Godoy Rigobello
Marcelo Godoy Rigobello
VP Global de Suporte ao Cliente - Conformidade Alfândega e Comercial, DHL Express
9 minutos de leitura
Empresário revisando documentos de exportação em frente ao notebook, atento às regras do USMCA

O USMCA (acordo de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá) continua em vigor. Na revisão conjunta de 1º de julho de 2026, os Estados Unidos não confirmaram a prorrogação por mais 16 anos, e o acordo passou a ser revisado todo ano. Tarifas preferenciais, regras de origem e procedimentos aduaneiros seguem valendo enquanto os três países negociam.

Se a sua empresa vende para o México, tem fábrica por lá ou disputa espaço no mercado americano com fornecedores mexicanos e canadenses, o resultado dessa revisão mexe no seu custo e no seu prazo. A seguir: o que é o USMCA, o que mudou em relação ao NAFTA, o que aconteceu na revisão de julho e como o exportador brasileiro deve se preparar.

O que é o USMCA?

O USMCA (United States-Mexico-Canada Agreement) é o acordo de livre comércio entre Estados Unidos, México e Canadá. Ele entrou em vigor em 1º de julho de 2020, no lugar do NAFTA, e regula a circulação de bens, serviços e dados entre os três países. No México, o mesmo acordo é chamado de T-MEC. No Canadá, de CUSMA.

Além das tarifas, o acordo traz disposições trabalhistas com força de execução, criadas para proteger direitos e salários dos trabalhadores dos três países. Esse capítulo voltou ao centro da mesa em 2026.

Qual é a diferença entre USMCA e NAFTA?

O USMCA manteve a espinha dorsal do NAFTA, que vigorou de 1994 a 2020, mas mudou pontos que pesam no dia a dia de quem exporta. As principais diferenças, segundo as fichas técnicas da USTR (o escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos):

Tema

NAFTA (1994 a 2020)

USMCA (desde 2020)

Conteúdo regional de veículos leves

62,5%

75%

Certificação de origem

formulário específico

autocertificação em qualquer formato, com um conjunto mínimo de dados

Comércio digital

sem capítulo próprio

proíbe tarifa aduaneira sobre produtos transmitidos eletronicamente

Pequenas e médias empresas

sem capítulo próprio

capítulo exclusivo para PMEs

Vigência

sem prazo

16 anos, com revisão conjunta no sexto ano

Por que o USMCA é importante para pequenas e médias empresas?

Porque foi o primeiro acordo comercial dos Estados Unidos com um capítulo dedicado às PMEs. Canadá e México são os dois maiores mercados de exportação das pequenas empresas americanas, segundo a USTR, e a burocracia da fronteira pesa mais em quem tem equipe enxuta. Três disposições fazem diferença na prática:

  • Autocertificação de origem: não existe mais um certificado em formulário próprio. O exportador, o produtor ou o importador declara a origem em qualquer formato que contenha os dados mínimos exigidos. Menos papel, mas mais responsabilidade sobre o que se declara.
  • Comércio digital: o acordo proíbe tarifas aduaneiras sobre produtos transmitidos eletronicamente e reforça as regras de fluxo de dados, o que beneficia software, mídia e serviços digitais.
  • Liberação rápida de remessas expressas: há regras para liberar com agilidade envios expressos e pacotes de baixo valor, essenciais para quem compete pela velocidade.

O USMCA elimina as tarifas?

Para mercadorias que cumprem as regras de origem, o acordo garante, em regra, tratamento livre de imposto de importação. Isso não impede os governos de aplicar medidas de defesa comercial ou tarifas adicionais por outros fundamentos legais.

O exemplo mais recente vem do Canadá. Em julho de 2026, a Casa Branca anunciou uma tarifa adicional de 50% sobre parte das importações canadenses. Em 21 de agosto, o governo do Canadá suspendeu as negociações bilaterais com os Estados Unidos e anunciou retaliação equivalente. Ser "originário do USMCA" reduz a tarifa base, mas não blinda o produto de novas medidas.

Lembre que a tarifa é recolhida pelo importador registrado no país de destino, e o custo costuma chegar ao preço final. O artigo Quem paga as tarifas de importação? detalha essa mecânica.

O que aconteceu na revisão conjunta de julho de 2026?

Diferente do NAFTA, o USMCA tem prazo de validade. O artigo 34.7 obriga os três países a fazer uma "revisão conjunta" no sexto aniversário da entrada em vigor, que caiu em 1º de julho de 2026. Nessa data, cada país deveria dizer se confirmava a prorrogação do acordo por mais 16 anos.

México e Canadá confirmaram. Os Estados Unidos, não. Em comunicado do mesmo dia, o representante de Comércio americano, Jamieson Greer, declarou que o país "não concordou em renovar o USMCA em sua forma atual" e citou os déficits comerciais com os dois vizinhos.

O USMCA continua em vigor?

Sim. O acordo não caducou nem expirou. Todos os direitos e obrigações atuais, incluindo tarifas preferenciais, regras de origem, proteção a investimentos e solução de controvérsias, continuam valendo exatamente como antes.

O que vem a seguir?

Como não houve confirmação da prorrogação, o acordo entrou em um ciclo de revisões conjuntas anuais. Elas se repetem até que os três países concordem em prorrogar ou até o vencimento, em 1º de julho de 2036. O próprio texto permite que os chefes de governo confirmem a prorrogação por escrito a qualquer momento, sem reabrir a negociação inteira.

Os Estados Unidos escolheram negociar em trilhas bilaterais separadas. Com o México, o calendário está assim:

Rodada

Quando e onde

Temas centrais

28 a 30 de maio de 2026, Cidade do México

regras de origem automotivas, aço, alumínio e segurança econômica

16 e 17 de junho de 2026, Washington

regras de origem para bens industriais, agricultura, trabalho e meio ambiente

21 a 23 de julho de 2026, Cidade do México

aço, alumínio, derivados e cadeias de valor

prevista para setembro de 2026, Washington

temas pendentes, com o setor automotivo no centro

Fonte: comunicados da USTR e da Secretaría de Economía do México, maio a julho de 2026.

Com o Canadá, a trilha travou. O país participou da reunião de 1º de julho e defendeu a renovação, mas em 21 de agosto interrompeu as conversas depois das novas tarifas americanas.

Por que uma empresa brasileira deve acompanhar a revisão do USMCA?

Porque o Brasil está conectado à América do Norte por três caminhos, e cada um reage de um jeito à revisão.

O primeiro é o México como cliente. Em 2025, o Brasil exportou US$ 7,7 bilhões para o México e importou US$ 6,2 bilhões, segundo o Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Boa parte dessa pauta é industrial: autopeças, motores, máquinas, aço e químicos, insumos que entram em fábricas mexicanas cujo produto final vai para os Estados Unidos.

Aqui mora o ponto de atenção. Um insumo brasileiro é "não originário" para o USMCA. Quanto maior a exigência de conteúdo regional, mais o comprador mexicano precisa vigiar a participação de peças de fora da região no custo do produto final. Se as rodadas bilaterais endurecerem as regras de origem do setor automotivo, o fornecedor brasileiro pode receber pedidos de abertura de custos, exigências de documentação ou pressão por substituição.

O segundo caminho é a fábrica no México. Empresas brasileiras como a Tupy (Saltillo e Ramos Arizpe) e a Marcopolo (Monterrey) produzem no México para vender aos Estados Unidos. Para elas, cada mudança de regra de origem, de conteúdo trabalhista ou de tarifa setorial altera a conta na hora.

O terceiro é a concorrência no mercado americano. Os Estados Unidos foram o segundo maior destino das exportações brasileiras em 2025, segundo o MDIC. Quando um produto mexicano ou canadense perde a preferência ou recebe tarifa nova, abre espaço para o fornecedor brasileiro. Só que o exportador do Brasil já convive com as tarifas adicionais americanas sobre produtos brasileiros, explicadas no guia sobre a Seção 301. A vantagem precisa ser calculada linha a linha, nunca presumida.

O que mudou para quem exporta do Brasil para o México em 2026?

Duas coisas, e nenhuma delas vem do USMCA.

A primeira é a reforma tarifária mexicana. Um decreto publicado no Diário Oficial da Federação em dezembro de 2025, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, elevou o imposto de importação de 1.463 posições tarifárias para países com os quais o México não tem acordo comercial, com alíquotas que chegam a 50% em alguns produtos. A lista cobre os setores automotivo, têxtil, vestuário, plástico, siderúrgico, eletrodomésticos, alumínio, brinquedos, móveis, calçados, papel, motocicletas, reboques e vidro, segundo a Secretaría de Economía.

O Brasil não tem tratado de livre comércio amplo com o México. O que existe são acordos parciais no âmbito da ALADI, descritos pelo Siscomex:

  • ACE-53, em vigor desde 2003, com preferências tarifárias recíprocas para cerca de 800 posições;
  • ACE-55, o acordo automotivo entre Mercosul e México, com livre comércio de automóveis, veículos comerciais leves, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e as autopeças listadas, em 251 linhas tarifárias.

Quem exporta itens cobertos por esses acordos mantém a preferência. Fora das listas, vale a tarifa geral, que subiu. E há um detalhe que pega muita empresa de surpresa: a preferência do ACE-53 é uma margem percentual de desconto sobre a tarifa geral. Se a tarifa geral sobe, o valor pago com desconto também sobe. Recalcule o custo mesmo para itens cobertos.

A segunda mudança é de documentação. Para usar a preferência do ACE-53 ou do ACE-55, a mercadoria precisa cumprir a regra de origem do acordo e viajar com o certificado de origem no modelo da ALADI, emitido por entidade habilitada no Brasil. Sem ele, o importador mexicano paga a tarifa cheia. Classificação correta na NCM e no código HS e uma fatura comercial completa evitam a maior parte dos problemas na fronteira.

Comparando os três mercados, o quadro do exportador brasileiro em setembro de 2026 é este:

Mercado

Base do acesso brasileiro

O que muda com a revisão do USMCA

Estados Unidos

tarifa geral mais tarifas adicionais sobre produtos brasileiros (Seção 301)

possível abertura de espaço onde produtos mexicanos ou canadenses perderem preferência

México

ACE-53 (cerca de 800 posições) e ACE-55 (automotivo); fora disso, tarifa geral elevada em 2026

pressão sobre insumos brasileiros em cadeias que exportam para os EUA

Canadá

sem acordo em vigor; Mercosul e Canadá negociam um tratado

a busca canadense por diversificação pode acelerar a negociação com o Mercosul

O acordo Mercosul-Canadá muda o jogo?

Pode mudar, e o momento ajuda. As negociações entre Mercosul e Canadá foram retomadas em outubro de 2025, e a décima rodada aconteceu em Toronto, de 25 a 29 de maio de 2026, com cinco capítulos avançando para a etapa de fechamento, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. O governo canadense repete que quer reduzir a dependência do mercado americano, e as tarifas de agosto reforçam essa agenda.

Para o exportador brasileiro, isso significa acompanhar duas frentes ao mesmo tempo: o que os Estados Unidos exigem de México e Canadá dentro do USMCA e o que o Canadá oferece ao Mercosul fora dele. Um acordo fechado ainda em 2026 abriria um mercado que hoje o Brasil acessa sem preferência tarifária.

O que fazer agora: 6 passos para quem envia para a América do Norte

Nada mudou de um dia para o outro nas remessas. Mas a revisão deixou de ser uma formalidade e virou negociação de verdade, com rodadas mensais e prazo até 2036. Seis medidas que cabem em qualquer porte de empresa:

  1. Mapeie a sua exposição. Liste o que você vende para o México, o que vende para os Estados Unidos e o que entra em produtos que cruzam a fronteira entre os dois. Essa lista define o tamanho do risco.
  2. Ponha a documentação de origem em dia. Para o México, certificado de origem da ALADI dentro da validade. Para clientes que exportam sob o USMCA, tenha a estrutura de custos pronta para responder a pedidos de comprovação. Auditoria de origem tende a ficar mais rigorosa durante uma negociação.
  3. Acompanhe automotivo, aço, alumínio e agro. São os setores que aparecem em todas as rodadas bilaterais. Se o seu produto está neles, cada comunicado da USTR ou da Secretaría de Economía merece leitura.
  4. Recalcule o custo do México com a tarifa de 2026. Inclua a tarifa geral nova, a margem de preferência do ACE-53 quando houver e o Incoterm escolhido, porque ele define quem paga o imposto na chegada.
  5. Construa flexibilidade na cadeia. Fornecedor alternativo, estoque de segurança e rota de contingência custam menos do que parar uma linha por uma regra que mudou sem aviso.
  6. Fique perto de quem desembaraça. Regra atrelada a negociação ativa muda com pouco aviso prévio. Um parceiro logístico com equipe de aduana nos três países vê a mudança antes de ela chegar à sua remessa.

Perguntas frequentes sobre o USMCA

Sim. O acordo permanece integralmente em vigor. Na revisão conjunta de 1º de julho de 2026, os Estados Unidos não confirmaram a prorrogação por mais 16 anos, mas isso não encerra o acordo: tarifas preferenciais, regras de origem e mecanismos de solução de controvérsias continuam valendo.

Como a prorrogação não foi confirmada em 2026, o artigo 34.7 obriga os três países a revisar o acordo todo ano. As revisões continuam até que eles confirmem a prorrogação ou até o vencimento, em 1º de julho de 2036.

Em 1º de julho de 2036, se não for prorrogado. Os chefes de governo dos três países podem confirmar por escrito, a qualquer momento antes disso, a extensão por mais 16 anos.

Não. É o mesmo acordo com nomes diferentes em cada país: USMCA nos Estados Unidos, T-MEC no México e CUSMA no Canadá.

Não. O Brasil acessa o México pelos acordos ACE-53 e ACE-55, da ALADI, e não tem acordo comercial em vigor com os Estados Unidos nem com o Canadá. Mercosul e Canadá negociam um tratado de livre comércio, com a décima rodada realizada em maio de 2026.

Por si só, não. Insumos brasileiros contam como conteúdo não originário. Um produto fabricado no México com peças brasileiras pode qualificar se cumprir a regra de origem específica do seu código HS, como o percentual de conteúdo regional ou a mudança de classificação tarifária exigida.

Prepare a sua operação para a América do Norte

A revisão de 2026 não encerrou o USMCA. Ela abriu um período de negociação que deve durar meses, talvez anos, com decisões anuais até 2036. Enquanto isso, as regras que você conhece continuam valendo, e o que separa quem aproveita essa fase de quem sofre com ela é informação em dia e documentação em ordem.

Se a sua empresa envia com frequência para o México, os Estados Unidos ou o Canadá, abra uma conta DHL Express Business e conte com a equipe de aduana da DHL para acompanhar cada mudança antes que ela chegue à sua remessa.